Este ano, o LNL fará 10 anos desde a sua fundação: temos muitos anos de estrada, muitos anos de almoços, jantares e todas as refeições no meio. Nesta década visitamos centenas e centenas de restaurantes um pouco por todo o país, e acompanhamos, na primeira fila, a evolução da gastronomia em Angola, bem como o desenvolvimento da restauração por cá. Podem imaginar a quantidade de menus que já vimos. Daí a pergunta: porquê que os restaurantes têm os mesmos menus?
É óbvio que é uma pergunta um tanto quanto redutora. Mas cada vez mais frequente, e não somos os únicos a fazê-la: recentemente, no Twitter, foi tema de mais um debate, parecido com os debates que temos internamente entre a equipa. Vejamos: a vasta maioria dos menus no país tendem a colocar as mesmas entradas, as mesmas carnes, os mesmos peixes. Entre as entradas, pica-pau, chouriço assado (às vezes do Lubango, às vezes não), choco, e em lugares mais um pouco mais ambiciosos, gambas ao alho ou amêijoas à bulhão pato. Sem falha. Com mais sorte, nos quintais, já levamos com uma dobradinha ou mão de vaca.
Entre os pratos de carne, raramente falha o ‘bife à moda do chef’, em que, como disse uma internauta, “o molho do chef nunca tem nada de especial”; a picanha, o bife à portuguesa, e o bitoque são outros com presença marcada nos menus angolanos, do norte ao sul. Sem esquecer, claro, o churrasco de frango. Sortudos somos quando vemos outras carnes no menu, ou pelo menos outras formas de as confeccionar.
A secção dos peixes não varia muito, estejas no Luena ou no Lobito: bacalhau e polvo à lagareiro, posta de atum, um cherne ou corvina grelhados, e um choco feito da mesma forma. Apenas nas barracas da Chicala, ou então em certas marisqueiras de Benguela e Namibe é que podemos apreciar e saborear a grande variedade de peixe que se apanha na nossa costa, mas não se apanha nos menus dos nossos restaurantes.
Para nós, é um paradoxo: por um lado, é inquestionável que a restauração local tem evoluído bastante desde há 10 anos. Os restaurantes que hoje existem pelo país eram uma mera miragem em 2013, nem no binóculo os deslumbrávamos. São mais ousados, mais eclécticos, mais criativos. Por outra, os menus não têm sofrido a mesma evolução.
Notamos que os cozinheiros, chefs e proprietários vão atrás de certas modas: o sushi veio pra ficar, por exemplo, e agora muitos restaurantes acham que devem ter sushi, tal é a demanda; a moda corrente é o tomahawk, que até pouco tempo era simplesmente inexistente nos menus. Mas em termos de mudanças substanciais na oferta de comida ao grande público, em termos de receitas inovadoras e criativas, em termos de pratos únicos e icônicos, vemos muito, muito pouco.
De quem é a culpa? Do público ou dos proprietários dos restaurantes?
Contam-se nos dedos os restaurantes que pegam nos nossos ingredientes e os transformam em algo fora do comum. O que para nós é mesmo muito estranho, tendo em conta a gigante diversidade alimentar disponível nesta terra. Contamos com uma vasta gama de legumes, frutas e vegetais, que podem ser trabalhados de inúmeras maneiras, uma rica oferta marítima, entre peixe e mariscos, e uma crescente quantidade de carne bovina, caprina e suína de alguma qualidade, que também pode ser trabalhada de formas diferentes. Isto sem falar na crescente gama de produtos chineses, indianos, libaneses e etc. que proliferam pelos nossos mercados…
Mas será que o público quer experimentar coisas novas? Eis a questão que levantamos não só com os nossos leitores mas também com os proprietários de certos restaurantes. Vários deles dizem-nos que “o angolano não gosta de experimentar coisas novas”, ou que “pratos fora do comum não têm saída, as pessoas preferem mesmo o seu bitoque”. É um ponto válido, afinal de contas são os proprietários que têm de lidar com os prejuízos de uma aposta gastronómica falhada. É também verdade que há muitos proprietários que não têm a mínima noção do que é ter e gerir um restaurante; muitos vêm este negócio como mais uma forma de ganhar algum lucro, e não têm incentivo para inovações. A restauração em Angola não está só nas mãos de quem estuda e quem percebe do assunto.
Porém, lembramo-nos de termos ouvido argumentos semelhares um pouco antes do sushi começar a conquistar os luandenses (e não só). Reparamos na grande aderência aos eventos gastronómicos, principalmente em Luanda, em que a oferta tende a ser algo fora do comum – o Angola Restaurant Week é apenas um exemplo. Notamos também que os poucos restaurantes que tentam inovar e criar algo diferente são muito procurados pelo público. Ou seja: há clientela.
Há muito espaço para a gastronomia feita em Angola evoluir ainda mais. A matéria prima está aí, os criadores estão aí, o mercado também. Necessitamos, contudo, de mais vontade por parte do público, mas principalmente por parte dos restaurantes, que têm também a missão de desafiar, educar e surpreender os seus clientes. Não podemos ir a um restaurante no Huambo e comer exatamente o mesmo que um restaurante no Lubango ou em Malanje, como se as diferentes províncias não tivessem identidade própria. É preciso inovarmos o nosso consumo, a nossa forma de trabalhar os nossos produtos. É preciso termos menus diferentes.